16 novembro 2017

GUERRA DE TRONOS: O Príncipe X O Pequeno Príncipe

As pessoas estão vivendo apenas para trabalhar e morrer. Nós, estamos sempre em modo automático levando as relações de forma superficiais, pois não temos mais tempo para nada. Já não paramos mais para ver as estrelas; queremos apenas o que está pronto e ao nosso alcance, para consumo imediato; assumimos ter ‘pavio curto’, porque não temos paciência para nos dedicarmos ao outro.

Que tal uma batalha de clássicos? 


Falar de clássicos é desafiador! Meu desafio é fazer uma analogia entre os 'Príncipes': O Príncipe, de Maquiavel, e O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, obras que, se você analisar bem, permitem estabelecer várias relações. Não pretendo resenhar nenhuma delas, mas quero trazer o momento exato em que uma completa a outra, causando a impressão de terem sido escritas nos tempos atuais. Nicolau Maquiavel foi considerado um filósofo político por defender um Estado forte, contrariando toda moral religiosa, focando plenamente no humanismo. 

O Príncipe, foi escrito em 1513. Através de uma narrativa de fatos históricos, Maquiavel escreveu uma espécie de manual para ensinar príncipes/governantes a conquistarem e a se manterem no poder. O autor construiu sua carreira política servindo por 14 anos à república de Florença, na Itália, sob o comando de Lorenzo Médici.

Dentre as chaves do conhecimento maquiaveliano farei uma abordagem a respeito da 'natureza humana', que é tratada em muitos capítulos do O Príncipe, que é catedrático quando diz que a juventude deveria avaliar a si mesma quanto às oportunidades de aprendizado, visto que nos mantemos o tempo todo ocupados, sem desenvolvermos as reais habilidades para se obter o sucesso. 

Em relação a O Pequeno Príncipe vou pinçar sobre a 'construção dos laços afetivos', que é bem presente ao longo da fábula. Le Petit Prince – obra do escritor, ilustrador e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, publicada em 1943. Sua experiência com uma pane do avião no deserto do Saara o inspirou a escrever o que seria hoje o terceiro livro mais vendido no mundo. Até voltar em segurança para casa, o autor narra uma de suas histórias mais marcantes e que, definitivamente, mudou sua vida pra sempre. 

20171116_112636.jpgSaint-Exupéry passou muitos anos admirando as estrelas, porque era onde ele vivia com seu avião. Através do O Pequeno Príncipe ele externa sua criança interior, alertando os leitores para que nunca esqueçam de que já foram criança. O que ele quis dizer é que as 'pessoas grandes' não deveriam ter tantas preocupações; deveriam levar a vida mais leve, sem pensar tanto em números ou posses. Na verdade, poderiam se esforçar mais para realizar os sonhos de infância. O momento de interseção das obras ocorre justamente quando falam do amor e dos laços que determinam o sucesso ou o fracasso na vida, que vale para um principado/governo; para o ambiente corporativo; para a convivência em sociedade. Muitas relações humanas são construídas na base do interesse e, no momento de conveniência, são rompidas de forma inescrupulosa. Maquiavel afirma que isso ocorre porque, de modo geral, os homens são ingratos, falsos, covardes e ambiciosos. Assim, enquanto você tiver sucesso, as pessoas demonstrarão afeto, oferecerão o próprio sangue, os bens, a vida e até os filhos, mas se voltarão contra você, quando não estiverem mais satisfeitas. 

Quando saiu do seu planeta em busca de conhecimento pelo mundo, O pequeno príncipe encontrou em sua jornada: vaidosos, avarentos, bêbados, ambiciosos e, mesmo não entendendo o porquê das 'pessoas grandes' levarem a vida desta forma, ele queria construir laços. Mas, um príncipe precisa saber ser animal e homem. Para Maquiavel, é necessário saber utilizar uma e outra natureza, posto que uma sem a outra não é duradoura. Para saber viver nesse mundo cão é preciso ser um leão para se defender das armadilhas e também ser raposa para identificá-las. 

Quando o pequeno príncipe chegou na Terra encontrou muita gente pelo caminho, dentre elas destaca-se a raposa, que o fez compreender, finalmente, a importância da amizade –, que é baseada na entrega e na dedicação, pois só se conhece bem as coisas ou as pessoas quando se cativa. Ele puniu a rosa – sua melhor amiga –, deixando-a sozinha em seu planeta, forçando-a a reconhecê-lo como seu protetor. Nicolau escreveu profundamente sobre isso, salientando que um príncipe deve saber recompensar e punir quem faz algo extraordinário, tanto bom quanto ruim, pois essa é uma das formas de ser respeitado. 

O que sabemos sobre as relações é que simplesmente elas são rompidas facilmente, independentemente do quanto alguém já se dedicou a elas. Isso acontece porque ninguém anda com tempo para se dedicar à amizade. Hoje opta-se pelas amizades virtuais, porque é mais fácil para administrar. Como disse Saint-Exupéry, dá comprar tudo pronto, mas como não existe lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, mas se quiser ter um é preciso cativar! Em O Príncipe isso fica claro: é possível reconhecer um verdadeiro amigo quando ele está ao seu lado no sucesso ou no fracasso; pois é aí que se estabelece um forte laço de amizade. 


20171116_112609.jpg
Nesses dois conjuntos de sentimentos e emoções dos 'príncipes', vividos em tempos distintos, porém atualizados à medida que passamos a julgar a nós mesmos, compreende-se que o ser humano não mudou, muito embora os meios de comunicação tenham provocado mudanças no comportamento, mas, não na natureza. Para fortalecer os laços é preciso ser paciente. A expectativa de um momento feliz com alguém é necessária para que o coração esteja preparado para sentir a felicidade, por isso as celebrações são tão marcantes e, hoje, todo mundo quer deixar registrado nas redes sociais. 

Depois de passar muito tempo exilado, com a queda dos 'Médicis', Maquiavel – que trabalhou muito tempo para eles – tentou uma remissão, dedicando a obra O Príncipe ao neto de Lorenzo de Médici, logo quando recuperou o poder, aconselhando-o a não deixar passar essa oportunidade, pois a Itália já tinha sofrido muito com as invasões estrangeiras e aquele seria o momento certo para ele ser amado. Na verdade, o que Maquiavel queria mesmo era ser lembrado, principalmente por sua obra. Ele conhecia bastante essa família e sabia como cativá-la, mesmo numa tentativa frustrada de voltar ao cargo. O Pequeno Príncipe também queria ser lembrado, portanto a raposa disse que sempre iria se lembrar dele, quando visse os trigos, pois era da mesma cor do seu cabelo. 

Somente o tempo que se perde cativando é que faz alguém ser importante. Pode-se aprender muito com esses dois clássicos, que são obras muito diferentes uma da outra, mas trazem conhecimentos profundos sobre as relações humanas. Podemos seguir nossa estrela e, assim, encontrar a felicidade que tanto buscamos, muitas vezes, em lugares improváveis.

Nenhum comentário: