05 maio 2014

Realizando sonhos

Sonhar não é apenas colocar a cabeça no travesseiro e fazer viagens psicodélicas por mundos desconexos, e, nem lembrar no dia seguinte. Sonhar é juntar as peças de um  grande quebra-cabeça, chamado vida.

Se você tiver a oportunidade para escrever sua história, e viver experiências que façam histórias, não troque por dinheiro, troque por sua alma.  O conhecimento é o único bem que não depende da ‘Taxa Selic’ para se manter no mercado.

   [foto de André Kondo e sua Esposa]  
O caminho se faz caminhando. Realizar sonhos é juntar as pedras peças. Cuidado! Nem todas as pedras no caminho vão servir para construir um castelo. Assim é o amor, não é qual quer pessoa que está disposta para amar, passar dificuldades  e realizar sonhos contigo   se ainda não encontrou o amor da sua vida, esses são os sinais!                                                                                        

Ninguém consegue conquistar nada sozinho. Primeiro, é preciso da coragem dos seus pais para te dar o melhor do que eles são capazes e te preparar para as bifurcações. Segundo, é preciso da coragem dos seus amigos, que além da vida deles, cuidam da sua também   no bom sentido, por isso nunca vire as costas para eles.E por fim, confie nas suas vontades!

Deixe apenas que as realizações caiam na rotina, não permita que seu espírito se acomode. Vá a luta! Mas sem violência! Suas boas condições físicas e mentais não te tornam superior a ninguém, esteja sempre aberto para aprender e se tornar uma pessoa melhor.

Você pode viajar o mundo. Mas nunca deixe de valorizar suas raízes, pois são elas que te sustenta. Estamos à margem de uma Copa do Mundo. Sim, vai ter Copa, mesmo que os benefícios para o País não sejam como o povo espera. Busque suas vitórias sempre pensando como elas podem beneficiar a sociedade, seja um multiplicador!

Todo mundo tem uma missão. Todos esperam a melhor onda, quer seja na moda, nas redes sociais e nas possibilidades que aparecem. Somos uma montanha de dados, informações, conhecimento e histórias para contar. Deixe seu legado enquanto você estiver quente! Realize-se!
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Este texto é inspirado na Entrevista com o Escritor André Kondo que deu a volta ao mundo,viajou mais de  60 países,  escalou vulcões, dormiu nas ruas, peregrinou pelos lugares mais sagrados do mundo, passou fome, frio, alegria, calor e muitas coisas para se tornar escritor.

Confira na íntegra! 

André, primeiro quero agradecer a você por se dispor a responder essas questões. Você é fonte de inspiração para qualquer pessoa que tem sonhos. Eu sou uma delas!

Eu que agradeço, Incessante Lena. Sempre é bom falar de sonhos... E é ainda mais gostoso falar de sonhos que se realizam, não é? 

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1.         Quando foi seu primeiro ‘estalo’ em dizer: vou viajar pelo mundo! E como foi esse planejamento na sua cabeça?

Quando eu era criança, ganhei um dominó com as figuras dos grandes monumentos do mundo. Fiquei fascinado com aquelas imagens: a Esfinge, a Grande Muralha, a Torre do Big Ben... Brincando, eu falei que um dia iria conhecer todos aqueles lugares. Meu pai me disse que se eu me esforçasse, poderia chegar a qualquer lugar do mundo. E concluiu dizendo: É só juntar as peças. O planejamento que fiz foi exatamente isso, juntar as peças. O resto foi fácil.

2.         Você vive da poesia e de suas histórias. Você já recebeu alguma proposta de trabalho financeiramente irrecusável, para deixar de ser escritor? Em caso afirmativo, como foi tal recusa? Em caso negativo, qual seria sua posição em relação a isso?

Desde 2003, quando saí da Universidade de Sydney e fui viajar, decidi trabalhar apenas como escritor. Mas é importante notar que, para mim, o trabalho do escritor não se resume ao ato da escrita. Às vezes, quando estou em uma praia idílica digo que estou “trabalhando”, já que estou curtindo uma experiência inspiradora. Nesse sentido, aceitei apenas propostas de “trabalho” que me acrescentassem algo como experiência de vida, portanto, algo que me inspirasse a escrever. Foi o caso em que trabalhei com um grupo de 50 tailandeses, que haviam vindo ao Brasil desmontar uma fábrica inteira, para levá-la para a Tailândia. Imagine isso! Quando me disseram o que queriam fazer, fiquei curioso. Achei que havia uma boa história aí. E havia muitas. Cheguei a morar com esse grupo em uma chácara, de propriedade do tataraneto do Barão de Mauá. Eles trouxeram até duas cozinheiras tailandesas. Por quase seis meses vivi como se estivesse em um lugar surreal. Foram dias muito intensos, em que servi como ponte entre brasileiros e tailandeses, traduzindo tudo entre eles. Fiz muitos amigos... Lá pelas tantas, o meu chefe tailandês comentou que a sua intenção era me pagar muito mais, que havia feito uma proposta de remuneração baixa e que eu deveria ter negociado com ele para conseguir mais dinheiro. Brincou dizendo que eu fiz um péssimo negócio. Respondi, sinceramente, que eu teria trabalhado de graça, só pela experiência incrível que estava vivendo. Foi engraçado. Afinal, quem havia feito mal negócio financeiramente? Concluindo, uma proposta de trabalho irrecusável para mim não tem nada a ver com dinheiro, mas se esse trabalho irá me enriquecer de outra forma, como ser humano. Obviamente, no mundo real isso não funciona direito. Mas não sei em que mundo vivo...
 
3.         Sua esposa é sua companheira de viagem? Quando ela passou a fazer parte desse sonho? Que histórias você contou a ela? Conte-me sobre a experiência de envolvê-la nessa jornada.

Minha esposa é mais do que minha companheira de viagem. Ela é uma companheira de vida. Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez em frente a uma estação de trem. Nosso primeiro beijo foi na estrada, a caminho de pegar uma carona para São Tomé das Letras. Desde o primeiro momento, eu senti que queria que ela fosse muito mais do que parte do meu sonho. Queria que ela fosse toda a minha realidade. E assim está sendo desde aquele primeiro olhar. Contamos várias histórias um ao outro. Muitas coisas haviam acontecido em nossas vidas, nem todas elas haviam sido boas. Mas quando a conheci, senti que era hora de virar certas páginas, definitivamente. Afinal, a partir dali, poderíamos escrever a nossa própria história, da melhor maneira possível. Era isso o que importava. Certa vez, pegamos um ônibus para São Bento do Sapucaí. A intenção era acampar lá e escalar a Pedra do Baú. Aquele mesmo ônibus seguiria até Paraisópolis, no sul de Minas. Um cara entrou e pagou a passagem até o fim da linha. Estranhei, porque o valor era o mesmo que eu tinha pagado. Questionei e o motorista disse que não importava onde eu fosse descer, o valor seria o mesmo. Então, perguntei pra Patrícia, minha musa-esposa: “Vamos até o fim também?”. Ela topou. Ao chegarmos em Paraisópolis, eu disse: “E se a gente fosse a pé até Aparecida?”. Ela topou na hora. Caminhamos mais de cem quilômetros, acampando pelo caminho, passando por caminhos da Serra da Mantiqueira. Chegamos lá, abençoados. Em Ilhabela foi a mesma coisa. Queríamos uma praia sossegada. O caminho até Castelhanos, do outro lado da ilha, estava interditado para carros. Ótimo, andamos dezenas de quilômetros. A recompensa? Acampamos só nós dois, na praia, olhando para as estrelas, como se fossemos as únicas pessoas do mundo. Naquele momento, realmente éramos. Portanto, não acho que eu a envolvi. Nós nos envolvemos um com o outro... Comemoramos nosso aniversário de namoro do ano passado na Ilha da Páscoa... A ideia surgiu porque naquela nossa primeira viagem, para São Tomé das Letras, era feriado de Páscoa... Sei lá se uma coisa tem a ver com a outra, mas com ela, tudo parece se encaixar. Tudo faz sentido. O amor faz isso.

4.         Você é uma pessoa desapegada a bens materiais. Qual sua reflexão sobre a sociedade corrompida pelo dinheiro – pais que matam filhos e filhos que matam pais, ou pessoas que se matam para garantir o seu ‘pirão primeiro’?

Uma pessoa não pode se matar quando a sua única ambição na vida é o dinheiro. Pra mim, essa pessoa já está morta, e uma pessoa que já está morta não pode se matar. Um pai não pode matar o seu filho, nem um filho pode matar os seus pais. Não considero quem mata alguém que gerou como pai, tampouco considero alguém que mata quem lhe deu a vida como filho. Pai é quem ama o filho. Filho é quem ama os pais. Um não mata o outro. Simples assim.

5.         Muitas pessoas que trabalham arduamente para juntar dinheiro sonham em viajar pelo mundo. Nem todos têm sua coragem de viajar ‘sem um puto no bolso’. Você tem alguma receita ou dicas para quem quer se arriscar?

Minha condição de viajar sem dinheiro foi uma situação atípica, pois eu estava me sentindo uma pessoa péssima. Havia pisado na bola com muita gente que eu amava. Sobretudo, virei as costas para o meu melhor amigo, Felipe, que acabou falecendo em um acidente. Quando vi minha vida se desmoronando, tomei uma atitude covarde. Fugi. Portanto, não foi um ato de coragem, mas de covardia. Coragem tem a pessoa que acorda todo o dia, e mesmo não gostando do trabalho, suporta pegar condução lotada, três horas de pé para ir e mais três para voltar, e ainda assim segue em frente. Segue em frente não por si, mas porque tem filhos para criar. Meus pais foram assim. Trabalharam muito para que eu e minha irmã pudéssemos ter as melhores condições. Tiravam da boca deles para nos alimentar. Tenho muito orgulho dos meus pais. São pessoas como meus pais que são corajosas. Eles vieram ao Brasil sem conhecer nada daqui. Não falavam uma palavra em português. Meu pai chegou a dormir na rua, mas trabalhou duro e conseguiu dar educação aos filhos. Minha mãe lavava e passava roupa em uma tinturaria. Chegaram a trabalhar na lavoura. Não tinham nada, e conseguiram criar dois filhos... Admiro e amo a minha família. Sem eles, não teria chegado a lugar algum... Enfim, quem viaja a lazer pelo mundo não precisa ter coragem, só precisa ter vontade de viajar. Portanto, a única dica que eu posso dar a quem quer viajar é: Vá.



6.         Sair da rotina é o desejo de muitas pessoas. Como você faz para não entrar na rotina ou, como faz para sair?

Você se lembra que eu disse que fiquei em uma chácara do tataraneto do Barão de Mauá? Pois então, o Fernando foi um cara sensacional pra mim. Quando os tailandeses foram embora, ele ficou sabendo que eu fiquei meio que sem lugar para morar. Ele me disse que eu poderia ficar lá, se quisesse, mas não aceitei ficar sozinho naquela casa grande. Preferi ficar em um quarto com banheiro em uma parte desativada de um asilo, que também fazia parte de sua propriedade. A parte superior ainda estava funcionando. Quando perguntei sobre valores, ele me disse que eu não precisava pagar nada. Falei sobre contas, ele disse que não era para eu me preocupar, que era só pra eu ficar lá de boa, escrevendo. Perguntei até quando podia ficar. Ele respondeu que eu poderia ficar até quando eu tivesse idade para me mudar para o “andar de cima”, isto é para o asilo em funcionamento. Bem, imagine morar em um asilo, ainda jovem. Você fica lá, olhando os lençóis secando ao vento. Escuta o barulho do trem por trás das árvores, depois, o silêncio. Não tem ninguém além de você na parte desativada. Sua rotina é essa: solidão. Se entrei na rotina? Não. Rotina não é o que acontece do lado de fora, mas do lado de dentro. Quando seu espírito acomoda, aí sim, você caiu na rotina. Meu espírito estava fervendo de ideias, de histórias, de sonhos. E quando meu corpo se cansou e senti vontade de viajar, o que fiz? Escrevi um livro de poesia, “Cem pequenas poesias do dia a dia”, sobre pequenas coisas do cotidiano... E esse livro ganhou o Prêmio de Literatura UNIFOR, cujo prêmio era uma passagem aérea para os Estados Unidos. Ganhei mais cerca de 500 dólares com outra poesia na UFSJ e, com essa grana, cai na estrada de novo. Viajei por mais de dez mil quilômetros, em uma peregrinação literária visitando desde a casa em que Jack Kerouac nasceu na costa leste até o túmulo de Jack London na costa oeste, “visitando” Hemingway, Melville, Salinger... Mas o melhor de tudo foi ter feito essa viagem pagando tudo apenas com poesia. Se isso é possível, o que não seria? Da rotina, faço minha viagem.

7.         Por onde você andou você viu de tudo. Você testemunhou barbaridades ou situações de humilhação com mulheres, gays, idosos ou crianças? Qual foi sua reação? Que lições tirou? Você já intercedeu por alguém em circunstâncias parecidas? Em caso negativo: você intercederia por pessoas em situações de humilhação ou constrangimento?

Já cheguei a brigar tentando defender um amigo de uma situação que julguei como humilhação. Aceitei a provocação. Isso foi quando eu era bem jovem. Fiz muitas coisas erradas quando era mais novo... Uma coisa que aprendi é que interceder por alguém brigando fisicamente não é a solução. Veja o exemplo de Gandhi. O povo indiano estava sendo humilhado, mas não reagiu com violência. Com essa atitude de resistência não violenta conseguiu a independência. Não seria esse o melhor dos caminhos? Quando eu estava na fronteira entre a Índia e o Nepal, vi uma criança paralisada em uma cadeira de rodas, em um templo de Lumbini, onde o Buda nasceu. Quando perguntei para a mãe da criança se ela estava ali para rezar pela cura da filha, ela me respondeu: Curá-la, de quê? Senti vergonha de mim, por ter tido pena da menina. Isso também é humilhar, quando nos sentimos, de qualquer forma, superiores. Só porque meu corpo se movia eu era superior àquela menina? Claro que não. A humilhação nasce de um sentimento de superioridade, que para ser superior, inferioriza outra pessoa. Ora, aquela mãe me mostrou que temos um poder muito grande dentro de nós. Se acreditarmos nessa força, nunca ninguém será capaz de nos humilhar. Se você aceita a humilhação, você está sendo humilhado, mas quando você ignora quem te humilha, quem está sendo humilhado? Somos todos iguais.



8.         Política – Religião – Futebol: você tem alguma ideologia política? Qual o papel da religião na sociedade? Vai ter copa? [O que acha do Brasil sediar a copa? Como esse evento pode contribuir para a transformação do País?]

Minha ideologia política é a honestidade. Não importa o partido, desde que o político seja honesto. Não digo honesto no sentido de não roubar, que isso é algo que deveria ser tão óbvio que nem deveria ser a questão. Quando digo honesto, eu me refiro à honestidade com os anseios do povo. Afinal de contas, o político não está lá para benefício próprio, mas pelo bem do povo. Um político honesto é aquele que se inclui no povo, inclui-se e beneficia-se indiretamente de suas ações, pois uma vez que o povo está bem, ele, como parte do povo, também estaria bem.

Em relação à religião, eu me espelho em minha avó. Ela tem no altar em sua casa: Jesus, Buda, Nossa Senhora de Aparecida, um livreto da Seicho-No-Iê, um copo quebrado... Minha avó simplesmente diz: Deus bom. Tudo bom! E o copo quebrado? É para se lembrar das imperfeições, pois nada é perfeito. Nenhuma religião é absolutamente perfeita, se a sua perfeição depende do desrespeito pautado na “imperfeição” de outra religião. Acredito que quando isso for compreendido, quando houver tolerância religiosa, com certeza teremos a paz. Afinal, esse deveria ser o verdadeiro papel da religião na sociedade.

Futebol? Gosto do Corinthians. Sei que muita gente vai pensar, puxa, ele estava indo tão bem nessa entrevista... Ora, se quiser, considere isso a minha imperfeição. Já vi muita gente dizer que é mais gostoso ver o Corinthians perder do que o próprio time para o qual torce ganhar. Enfim, cada um torce de uma maneira, mas eu prefiro sempre torcer a favor. Ganhamos muito mais com isso, pois felicidade que depende da tristeza alheia nunca é verdadeira. De qualquer forma, não sou fanático. Todo fanatismo é perigoso.

Vai ter Copa? De um jeito ou de outro, vai sim. Morei no Japão e eu estava no estádio de Yokohama, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato. Tudo foi muito bem organizado; até a comemoração. Após o jogo, nada de festa. Todo mundo voltando pra casa, de forma ordeira. Já assisti a jogos de beisebol do Japão, nas Olimpíadas de Sydney. Também tudo foi muito ordeiro. Ora, no Brasil a comemoração é intensa, a festa é muito maior, pra qualquer coisa. Pelo povo, a festa tem tudo para ser a melhor de todas. Pela organização, bem, aí é outra coisa. Acho que uma Copa ideal seria feita com a organização japonesa e a alegria brasileira. Mas... nem tudo é do jeito que desejamos. Quando anunciaram a Copa aqui, tive uma ponta de esperança. Anunciaram o trem bala, a melhoria na infraestrutura dos aeroportos... Pensei que talvez a construção do estádio em Itaquera fosse melhorar as condições do povo humilde daquela região... Não tenho culpa por ter esperança. Vejo com tristeza os estádios superfaturados, as obras inacabadas. Tudo poderia ter sido muito melhor. O brasileiro, e eu sou brasileiro, sempre teve esse sentimento de inferioridade, que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”. Temos que parar de pensar dessa forma. O Brasil tem capacidade de fazer uma grande Copa, mas o povo não acredita nisso. Os políticos são corruptos? É porque o povo merece. Merece? Não, não merece. O povo aceita tudo isso porque não se dá valor. Não acha que merece algo melhor. No momento em que realmente acreditarmos que merecemos uma educação de qualidade, hospitais decentes, transporte digno, aí sim, as coisas irão se transformar. Mas, claro, para merecermos qualquer coisa, devemos fazer a nossa parte. Temos realmente que merecer cada melhoria. De que adianta querer um transporte digno, se riscamos os vidros do trem? De que adianta protestar contra a falta de ônibus, queimando-os e agravando a situação? De que adiantam as lixeiras nas ruas se as chutamos e jogamos o papel de bala no chão? Como exigir uma educação de qualidade na escola se você não educa os filhos em casa? Como um aluno pode exigir que o professor o ensine com qualidade, se não o respeita e assim o desqualifica? Exigir as coisas é fácil, o difícil é fazer nossa parte. Pensamos que não merecemos as coisas, simplesmente porque não nos damos o trabalho de fazer por merecer. Nenhum evento, seja Copa ou Olimpíada, pode fazer essa transformação positiva por nós. Nós temos que ser esse evento de transformação.

9.         Eu considero você uma pessoa incessante! Você já recebeu algum título, apelido ou nome carinhoso que reflita a sua identidade? Qual? Gostou? Mantém tal apelido ou nome em seu cotidiano?

Apenas um apelido óbvio: japonês. Quando eu era criança, isso me incomodava. Eu queria ser apenas brasileiro como todo mundo, ter um nome. Mas agora vejo isso como elogio. O povo japonês é muito respeitado aqui no Brasil, não é? O engraçado é que algumas pessoas já me disseram até que queriam ser japonesas. Poxa, ninguém está satisfeito! Se eu mantenho o apelido? Bem, alguns amigos queridos o mantêm por mim.

10.       Todo mundo tem ‘uma onda’ neste mundo? Qual a sua? Qual o legado que você quer deixar?

Acho que não tenho mais onda. Já tive várias. Uma onda, por maior que seja, se quebra na praia e vira espuma. Hoje, prefiro o mar calmo, o oceano. Legado? Quero amar e ser amado. Quando eu for embora, quando as pessoas que amo e que me amam também se forem, esse amor, em particular, irá acabar. É... acho que prefiro viver o meu legado enquanto estiver por aqui. E como legado literário, sigo o ponto de vista da grande Lygia Fagundes Telles: “Me leia enquanto estou quente”.

11.       Comercialmente falando, os concursos literários podem revelar grandes escritores brasileiros? Os concursos têm piorado ou melhorado? Os participantes podem entender os concursos como uma porta que lhes permita viver de literatura?

Veja o caso do Prêmio Benvirá, para obras inéditas. Só a primeira edição desse prêmio revelou Oscar Nakasato, vencedor não apenas do Benvirá, mas também do Jabuti de melhor romance; além de Alessandro Thomé, cuja obra “A casa iluminada” vai se tornar filme; e Raphael Montes, cujas obras estão vendendo muito! E digo isso apenas de uma edição de um concurso. Veja também o exemplo da jovem Luisa Geisler, que venceu duas edições do Prêmio SESC de Literatura. Ela até entrou na edição da GRANTA, como uma das melhores jovens escritoras do Brasil. Também tem o Walther Moreira Santos, com o seu premiado “O Ciclista”. Tenho muitos amigos talentosos, vencedores de concursos literários. Até nos sentimos como um grupo literário, denominado CL (Concursos Literários), que nasceu como uma comunidade do Orkut. Fico com receio de citar nomes, pois há tanta gente talentosa na CL que certamente me esquecerei de alguém... Mas só de olhar de relance na minha estante, vejo obras de Simone Pedersen, Rodrigo Domit, Henriette Effenberger, Zulmar Lopes, Edelson Nagues, Sérgio Bernardo, Geraldo Trombin, J. P. Hergesel, Edweine Loureiro, Maria A. S. Coquemala, Alexandre de Castro Gomes, Rosana Banharoli, Ricardo Lahud, Nathalia Wigg, Jacqueline Salgado, Whisner Fraga, Amanda Reznor, Vivian de Moraes... Isso apenas para citar alguns livros carinhosamente autografados na minha estante, de amigos da CL... Há muitos mais. Falando da minha experiência com concursos, assinei com a editora JBC graças a um prêmio do ProAC, do Governo de São Paulo. A obra ainda recebeu o Prêmio Bunkyo de Literatura (junto com obras de Oscar Nakasato e Marília Kubota). Posteriormente, foi até adotado pelo Fundo para o Desenvolvimento da Eduçação e distribuída a todas as bibliotecas das escolas estaduais de São Paulo. Também assinei contrato com a editora FTD, após minha obra “O Pequeno Samurai” receber duas menções honrosas no tradicional Prêmio João-de-Barro. E também terei outra obra saindo pela CEPE, também selecionada por concurso literário. Portanto, pelo menos para mim, os concursos literários têm sido essenciais. Atualmente também tenho a alegria de fazer parte da equipe do blog Concursos Literários (www.concursos-literarios.blogspot.com.br), que divulga várias oportunidades para quem quer se aventurar nessa viagem que é a literatura. Quero que mais pessoas tenham as mesmas chances que eu tive. E devem aproveitar agora, pois acho que os concursos têm melhorado. Hoje, há muito mais oportunidades. Dessa forma, respondendo à sua pergunta mais diretamente, eu acredito sim, que os concursos podem ser uma porta para viver de literatura. Mas, claro, é preciso perseverança. Não é porque você se inscreve em um concurso literário que já deve esperar retorno imediato. Ganhar às vezes leva tempo e, com certeza, muita dedicação. Tem que se ler muito, ser humilde para perceber as fraquezas da nossa escrita, corrigi-las, tentar melhorar sempre... É preciso apaixonar-se pela literatura. Afinal, para tudo na vida é preciso primeiro ter paixão, mas depois, é preciso se esforçar a cada dia para que essa paixão não se apague. Com dedicação, transformamos essa paixão em amor. Aí, conseguimos realizar qualquer coisa.

12.       De modo metafórico, se você não fosse às montanhas, as montanhas teriam vindo até você? Explique essa paixão em arriscar a vida escalando? Onde mais além você chegou ou pretendeu chegar?
 
Prefiro pensar que sou a montanha. Acho que todo mundo é uma montanha. Todo dia estamos nos escalando, correndo riscos. Alguns se cansam de si mesmos e param no meio do caminho. Outros prosseguem e alcançam o cume de suas existências. E aí? Acaba? Não, não acaba. A pessoa desce e se escala de novo, só pra sentir a beleza da escalada mais uma vez, pois percebe que a parte mais legal foi justamente o esforço de se chegar até lá. Sei que isso soa clichê, mas se é assim, é porque muitas pessoas pensam da mesma forma. Não disse que somos todos iguais?

Enfim, onde eu pretendo chegar? A resposta não poderia ser diferente. Quero chegar onde estão todos os que já partiram antes de mim. Será uma grande festa, além do horizonte...

Quem quiser me visitar enquanto estou por aqui: www.andrekondo.blogspot.com.br

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2 comentários:

Nathalia Wigg disse...

Lena, que entrevista sensacional! Parabéns ao entrevistador e ao entrevistado. Amigo André Kondo, quero muito conhecer pessoalmente você e sua companheira. Admiro demais a pessoa e o escritor que você é. Sinto-me honrada por ter sido citada por você. Obrigada. Linda entrevista. É algo que todo mundo deveria ler. Beijos, Lena e André. Fiquem na luz.

André Luís Soares disse...

Lena, boa tarde... parabéns pela excelente entrevista.

Kondo, boa tarde... parabéns por tanta sabedoria que, a meu ver, transborda naturalmente através de suas palavras.

A primeira vez que li um texto seu foi uma crônica inserida na antologia do III Prêmio Literário Legislativo, de Caçapava do Sul (RS). Virei fã. Cada vez mais aprendo com sua simplicidade e perseverança. A entrevista bem mostra isso. Seu sucesso, seja na literatura ou no amor, são somente os frutos derivados da boa semente, bem plantada e bem cuidada.

Sucesso hoje e sempre, pra você, André Kondo; e também pra você, Lena Casas Novas... para que possa nos presentear com outras entrevistas tão maravilhosas quanto esta.

Aos dois, entrevistado e entrevistadora, meu respeito, minha admiração e meu abraço!